Imagine você que, em meados do século XIX, um naturalista dinamarquês, em viagem pelo Brasil, se maravilha com a observação de algumas centenas de aves na porção mineira da bacia do Rio Doce.

Conhecida como arapapá (Cochlearius cochlearius), essa ave, que parece uma garça de bico achatado, entrou para os registros de Johannes Theodor Reinhardt após ser observada por ele enquanto esteve no nosso país, entre 1847 e 1855, para acompanhar outro eminente naturalista, Peter Wilhelm Lund.

Reinhardt reportou diversos avistamentos da ave na bacia do Rio Doce, em Minas Gerais. Depois disso, aparentemente, ela sumiu.

Mais de 160 anos depois, no entanto, o arapapá foi redescoberto em Minas Gerais, às margens do Rio Guanhães, no município de Dores de Guanhães.

O registro da ave foi divulgado em artigo de autoria de Marcelo Ferreira de Vasconcelos, naturalista e curador da Coleção de Ornitologia do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, de Taciano Paula e Paula, Carlos Eduardo Ribas Tameirão Benfica e Leonardo Esteves Lopes. O artigo foi publicado na revista Atualidades Ornitológicas.

Ave sumida? Por onde se escondeu?

De acordo com Marcelo Vasconcelos, a espécie da ave tem sido observada em outros locais do país. Mas, possivelmente, por ser tratar de uma espécie de hábitos noturnos, passou mais de um século sem ser registrada na região do Rio Doce.

Neste caso específico, foi o uso de uma armadilha fotográfica que contribuiu para o registro, aliada aos conhecimentos de Marcelo sobre as aves da região.

“A fotografia é um documento, uma evidência física que indica que a ave estava lá e que agora permite que essa presença seja checada”, explica Marcelo.

Segundo ele, o mais comum, depois de tanto tempo sem registro, é que essas espécies tenham sido extintas. Há, no entanto, uma grande variedade de motivos que podem levar ao “desaparecimento” de animais na natureza. “Nós, naturalistas dos século XXI, temos também a missão de redescobrir o que os naturalistas do século XIX documentaram”, comenta.

A depender de diversas circunstâncias, espécies de animais podem ser considerados extintos ou em risco de extinção.

Observação de aves e ciência cidadã

Você já ouviu falar em ciência cidadã?

É um tipo de produção de conhecimento que se apoia na participação voluntária de cidadãos para a coleta de dados que podem contribuir com o desenvolvimento científico.

A popularização de atividades de lazer relacionadas à observação de aves no Brasil tem ampliado projetos desse tipo, uma vez que os observadores, ao registrarem em fotografias e gravarem cantos de aves, contribuem para que os pesquisadores possam acessar bases de dados colaborativas em

Uma dessas plataformas é a WikiAves, site que reúne uma infinidade de registros de cidadãos sobre aves existentes em todo o território nacional.

Ao acessar o WikiAves, Marcelo identificou que a ave contava com registros em outras regiões de Minas Gerais, mas não na bacia do Rio Doce.

“É um bicho que depende de algum grau de conservação, ou seja, depende da preservação do meio ambiente em que vive. Nosso país está sendo devastado muito rapidamente, mas ainda temos espécies das mais diversas que ainda são desconhecidas, ou que foram descritas há 100, 200 anos e ninguém nunca mais viu. Nossa missão hoje é correr contra o tempo e tentar documentar o mais rápido possível a existência dessas espécies, antes que a mata caia e elas desapareçam”, alerta Marcelo Vasconcelos.

Para saber mais, visite o site WikiAves: www.wikiaves.com.br.

Leia também sobre a importância das coleções científicas na Minas Faz Ciência n. 59.