Já ouviu falar em Paleografia? Não? Então vamos juntos explorar este fascinante universo dos documentos que registram a história da humanidade.

Consegue entender o que está escrito neste documento histórico aí do lado? Difícil, né?

Pois é exatamente isso que faz a Paleografia. Ajuda a compreender as escritas nos documentos históricos, já que a grafia (escrita) era muito diferente da nossa atual. 

Paleo vem de antigo e grafhia de escrita. Escrita antiga. A ideia inicial da paleografia surgiu no século XVII, XVIII, no sentido de compreender uma escrita mais antiga e fazer uma transcrição, conseguindo decifrar seu conteúdo.

É como se tornar um detetive de documentos antigos.

Para se tornar um paleógrafo, é preciso gostar muito de história, de pesquisa e realizar vários cursos, principalmente de  Arquivologia.

Além da caligrafia, escrita à mão (já que não existiam computadores ou máquinas de escrever), os documentos antigos estão repletos de abreviaturas comuns à época, o que torna ainda mais complexa a pesquisa nestes registros históricos.

Por que estudar a escrita antiga?

O especialista no assunto, professor Marcelo Siqueira gosta de dizer que a função principal de um documento é comprovar que alguma coisa aconteceu. Pode ser alguma coisa que alguém fez, ou algum registro importante, uma lei, por exemplo. Por isso, é muito importante saber exatamente o que está escrito ali, para não haver erros. 

Qualquer instituição com documentos manuscritos precisa ter paleógrafos para conhecer o conteúdo dessa documentação, principalmente, bibliotecas, arquivos, museus, centros de documentação.

O Arquivo Nacional (AN), onde ficam arquivados os documentos históricos brasileiros, por exemplo, é um dos maiores do mundo, com cerca de 55 quilômetros de documentos. Isso é o mesmo que colocar todos os documentos em fila, ida e volta, na distância que liga Belo Horizonte ao aeroporto de Confins.

Cerca de metade destes documentos foram escritos à mão (manuscritos) e não conseguem ser lidos por 90% das pessoas. 

De que adianta termos uma documentação vastíssima se não conseguimos ler, entender e ter acesso? Como vamos contar a história do Brasil, por exemplo, se não conseguimos ter acesso aos documentos? A importância da Paleografia, tanto para o AN, quanto para qualquer instituição que tenha documentação manuscrita, é que se não sabermos ler o que está ali, não saberemos seu conteúdo. É de suma importância que o AN tenha em seu quadro pessoas qualificadas a ler esses documentos. O usuário, em sua maioria, não tem acesso a esse conhecimento e, por isso, não conseguem ler o que está escrito nessas documentações, alerta Marcelo Siqueira.

Atualmente, grande parte da consulta do AN se refere à imigração, documentação de entrada de imigrantes, que não é muito antiga, é do século XIX, inicio do século XX. As pessoas consultam estes documentos para saberem suas origens e comprovarem que os parentes vieram de fora do Brasil, por exemplo.

Quanto à pesquisa, grande parte da documentação da escravidão, da independência, do processo do Brasil Colônia, da colonização, precisa de trabalho de Paleografia. Gostaria de destacar nossos livros de Sesmaria, a documentação textual mais antiga do AN, de 1594. É uma documentação que, qualquer pessoa sem treinamento paleográfico, não consegue ler uma palavra! Esses livros falam sobre a colonização no Rio de Janeiro. Como vou estudar a colonização do Brasil, do Rio de janeiro, saber quem recebeu determinadas terras, conhecer a construção administrativa e política da cidade, que também é a do Brasil, sem entender o que está escrito?

Claro que a paleografia não se resume à ação de transcrever um documento. O paleógrafo precisa conhecer questões referentes ao suporte, às tintas, ao contexto histórico, a diplomática – que é a área do conhecimento que estuda o documento especificamente.

Curiosidades

Professor Marcelo Siqueira costuma brincar que o paleógrafo é como se fosse um semideus.

Deus tem a capacidade de ressuscitar as pessoas, nós temos a capacidade de ressuscitar a informação que está perdida, que está morta. Não havendo esse trabalho, ninguém conseguirá ler a informação e o documento acaba virando peça de museu. Deixa de ser um documento arquivístico, que prova algo, que informa e que traz novas identidades e características para a história.

Tem casos curiosos em que detalhes íntimos de uma família até então desconhecidos são revelados após leitura profissional de documentos como cartas. Também já atuamos em casos de testamento, em que a família dizia uma coisa e os documentos revelavam outra.

O Brasil é o país das Américas que tem o maior número de documentação manuscrita, sendo maior que EUA e México. O Rio de Janeiro é a capital da documentação manuscrita, onde estão o Arquivo Nacional, Itamaraty, Arquivo Geral da Cidade, Arquivos Militares, Biblioteca Nacional, “com uma documentação valiosíssima, vastíssima e, sem paleógrafo, não vamos conseguir compreender esses documentos”, ressalta o professor Marcelo.

Tem uma historia muito interessante de um aluno de doutorado que fez sua tese sobre uma rebelião no Brasil Colônia. Ele leu que o governo local mandou apenas dois soldados para sufocar a rebelião. Antes do número dois no documento, tinha um símbolo de cifrão. A pessoa por não ser paleógrafa, sem o conhecimento, não entendeu o significado. Na verdade, era uma abreviatura que significa a multiplicação por mil. Eram dois mil soldados.

Muda completamente a compreensão de tudo! Isso demonstra a importância de se conhecer a Paleografia. Se transcrever de forma errada um documento, uma história errada será construída. Uma história equivocada. A figura do paleógrafo é fundamental.

*  Com informações da Assessoria de Comunicação do Arquivo Nacional