Múmias, pirâmides e sarcófagos estão entre os itens que povoam nossa imaginação quando pensamos em profissões cheias de aventura e descobertas, como a dos arqueólogos.

Mas você sabia que professores de história também têm um papel importante na compreensão da sociedade do Egito Antigo?

Nós conversamos com o professor Fábio Frizzo, da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), que foi convidado para participar de um projeto internacional que vai escavar, restaurar e pesquisar a tumba de um nobre egípcio chamado Amenmose, que viveu entre 1479 e 1458 antes de Cristo.

Confira a entrevista:

Você é historiador, certo? Conte-me um pouco sobre sua profissão e temas de pesquisa?

Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

No Brasil os historiadores são, na realidade, professores de História, como os que as crianças têm no colégio.

Eu mesmo lecionei em escolas do ensino básico por algum tempo. Embora hoje eu trabalhe apenas na Universidade, continuo dialogando com as escolas porque meu principal trabalho é formar professores.

Desde o início dos meus estudos na universidade, eu pesquiso a sociedade dos faraós.

Comecei me dedicando ao aspecto funerário da religião: quais os tipos de crenças os egípcios tinham para a vida após a morte? O que eles precisavam fazer em vida para garantir uma vida após a morte adequada? Como eram enterrados?

Depois, fui estudar processos políticos e econômicos: como os grupos dominantes exploravam o trabalho dos grupos dominados do Egito? De que maneira o Egito se relacionava com os povos que viviam ao seu redor?

Nos últimos cinco anos, passei a me interessar também pelos aspectos do ensino de Egito Antigo na educação de nível básico, tentando responder perguntas como: como é ensinada a história do Egito Antigo? Quais são as formas mais eficazes de despertar o interesse das crianças e adolescentes? Para que serve ensinar sobre esse passado distante no Brasil?

Quais as principais diferenças entre o trabalho de um arqueólogo e de um historiador?

Não há fronteiras claras entre o trabalho de um arqueólogo e de um historiador nos trabalhos de campo.

A diferença entre as duas carreiras: é mais uma questão de enfoque sobre os vestígios do passado.

Enquanto a História, como disciplina, se construiu pensando na análise de registros escritos, a Arqueologia se concentrou no que é chamado de cultura material, ou seja, os registros materiais da agência humana (objetos, monumentos, paisagens etc).

No caso dos estudos de Egito Antigo, a maioria das fontes escritas é fruto do trabalho arqueológico, necessário para descobrir os objetos nos quais as coisas estão escritas, como papiros, cacos de pedras, paredes de tumbas, monumentos, etc.

Assim, pode-se dizer que o trabalho em campo é principalmente arqueológico.

Mas há muito tempo os historiadores da Antiguidade já aceitaram que é fundamental trabalhar com a cultura material, não se concentrando apenas nos registros escritos.

Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

Sua viagem ao Egito está prevista para ser realizada em janeiro e fevereiro de 2020, certo? Como você se prepara até lá? O que você está lendo e estudando?

Além dos preparativos de qualquer viagem (passagens, hospedagens etc), há uma preparação de estudos.

Estou estudando mais sobre o tipo de tumba que vamos explorar. Coisas como: quais são as características das tumbas deste período? Com que tipo de coisas os mortos eram enterrados nelas?

Há uma preparação técnica também, que tenho feito estudando sobre o trabalho em campo: quais os métodos de trabalho? De que maneira registrar os achados? Como se dão os processos de restauração?

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Será sua primeira vez no Egito? O que espera encontrar e vivenciar nesta viagem?

Será minha primeira vez, sim!

Estou muito curioso sobre muitas coisas, como conhecer diversas localidades, museus, bibliotecas, mas também responder algumas perguntas.

Por exemplo, qual a relação daquela população local com esses monumentos e os registros desse passado? Ou de que maneira os monumentos e textos que eu já conhecia se relacionam com a espacialidade do lugar?

É diferente conhecer algo num mapa e observando ao vivo no local.

Mas também estou ansioso para aprender na prática sobre o trabalho de campo e conhecer outros especialistas que já têm essa experiência.

Por fim, só de conviver numa realidade muito diferente da nossa, com pessoas de muitos países e enormes diferenças culturais, já há um aprendizado muito grande.

Como podemos incentivar crianças, adolescentes e jovens a perseguirem seus sonhos para se tornarem pesquisadores?

Primeiro, precisamos estimular o olhar crítico sobre essas sociedades de um passado distante.

Um dos caminhos para isto é partir das representações dela na TV, no cinema, na literatura infanto-juvenil. Isso é fundamental para aproximar o ensino do passado da realidade presente dos jovens.

Este papel cabe, principalmente, aos professores do Ensino Fundamental. Isto pode ser trabalhado pela Geografia, pela Literatura, pela Matemática, etc. Afinal, a civilização egípcia foi riquíssima em suas contribuições.

Em segundo lugar, há uma responsabilidade do governo, de garantir as possibilidades para desenvolver estes interesses através do investimento em museus, projetos educacionais, bibliotecas, políticas educacionais para editoras e mídia e, por fim, em oportunidades de pesquisa, desde a Iniciação Científica no Ensino Básico até o doutorado e as oportunidades de pesquisa no exterior.

Por fim, cabe a nós, professores e pesquisadores, o papel de ocupar os espaços públicos e dialogar sobre o conhecimento que produzimos para todos os tipos de públicos.

Boa viagem, professor!

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