Por quase um ano, os gêmeos idênticos americanos Scott e Mark Kelly viveram em mundos diferentes – literalmente. Mark desfrutou da aposentadoria em Tucson, Arizona, Estados Unidos da América. Enquanto isso, Scott flutuava em microgravidade a bordo da Estação Espacial Internacional, a cerca de 400 quilômetros do planeta.

Esta foi uma experiência inédita, que permitiu aos cientistas entender, de forma mais clara, como um voo espacial com longa duração

Scott Kelly realiza um teste de habilidades mentais durante seu tempo na Estação Espacial Internacional. NASA

pode afetar o corpo de um ser humano.

Dez equipes científicas do Estudo de Gêmeos da NASA examinaram os irmãos astronautas antes, durante e depois dos 340 dias de Scott no espaço.

As equipes estudaram as funções do corpo de cada gêmeo, executaram testes de memória e examinaram os genes dos dois homens.

Os resultados da pesquisa confirmam que longas viagens espaciais estressam o corpo humano de várias maneiras. A vida no espaço pode mudar genes e fazer com que o sistema imunológico entre em ação. Pode também entorpecer o raciocínio mental e a memória.

“Esta é a visão mais completa que já tivemos da resposta do corpo humano ao voo espacial”, diz Susan Bailey.

Ela é especialista em radiação e câncer e liderou uma das equipes de pesquisa da NASA. Segundo a cientista, ainda não está claro se as mudanças causadas causarão danos a longo prazo.

Os cientistas não puderam ir  ao espaço com Scott em 2015. Então o astronauta teve que ajudá-los na pesquisa. Enquanto em órbita, ele coletou amostras de seu sangue, urina e fezes. Outros astronautas visitantes trouxeram este material de volta à Terra.

Em seguida, as equipes de pesquisa realizaram vários testes diferentes para analisar diferentes funções do corpo. Eles compararam esses dados aos obtidos antes e depois do voo espacial de Scott.

As amostras de Scott do espaço mostraram muitas mudanças genéticas. Mais de mil de seus genes tinham marcadores químicos que não estavam em suas amostras pré-voo ou em amostras do seu irmão Mark.

As viagem alterou também cromossomos, o metabolismo e o sistema imunológico do astronauta.

Efeitos duradouros

Selfie de Scott Kelly a bordo da Estação Espacial Internacional, onde passou 340 dias.

A boa notícia é que a maioria das mudanças que Scott experimentou no espaço voltou ao normal quando ele retornou à Terra. Mas nem tudo.

Os pesquisadores testaram Scott novamente depois de seis meses de volta em terra. Aproximadamente 91% dos genes que alteraram a atividade no espaço estavam agora de volta ao normal. O resto ficou no modo espacial.

Seu sistema imunológico, por exemplo, permaneceu em alerta máximo. Alguns genes permaneceram excessivamente ativos e parte dos  cromossomos ainda estavam confusos.

Além do mais, as habilidades mentais de Scott ficaram menores do que eram antes do voo. Ele ficou mais lento e menos preciso em testes de lógica e memória de curto prazo.

Mais respostas podem vir das próximas missões. Em outubro do ano passado, a NASA financiou 25 novos projetos, cada um enviando até 10 astronautas em missões espaciais anuais.

E, em 17 de abril, a NASA anunciou uma extensa visita espacial da astronauta norte-americana Christina Koch. Ela chegou à Estação Espacial Internacional em março. Esta missão, até fevereiro de 2020, fará com que seu vôo espacial seja o mais longo ainda para uma mulher.

Mas aprender como o espaço realmente afeta a saúde pode exigir viagens ainda mais longas. Uma missão a Marte de ida e volta levaria cerca de 30 meses. Também enviaria astronautas para além do campo magnético protetor da Terra. 

Somente astronautas nas missões lunares foram além do campo magnético da Terra. Nenhuma dessas viagens durou mais do que alguns dias cada. Então, ninguém passou nem um ano naquele ambiente desprotegido, quanto mais 2,5 anos!

Fascinante, não é mesmo?!

*Com informações da NASA e do jornalista americano Heremy Rehm