“A literatura de qualidade humaniza, porque nos faz vivenciar experiências humanas fora da nossa realidade. Nos coloca em contato com pessoas e condições, às vezes, improváveis. A literatura permite que você estenda suas experiências de forma segura”, Marília Paiva, professora da Escola de Ciência da Informação da UFMG e presidenta do Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª região (MG/ES).

Desde a Idade Média, quando os livros se disseminaram na humanidade, surgiu a ideia de que a leitura cura a alma. Isso porque, o livro é um passaporte que permite viajar e aproveitar aventuras de personagens. As histórias, romances e poemas nos ajudam a organizar melhor as questões emocionais, autoconhecimento e controle de ansiedade. Portanto, os livros podem ser usados como terapia, ou seja, uma biblioterapia.

De acordo com a professora Marília Paiva, especialista no assunto, a biblioterapia é a possibilidade de usar o livro para ajudar as pessoas a equilibrarem sentimentos.  “A identificação com a literatura pode ajudar a processar emoções que uma pessoa esteja vivendo e, talvez, tenha dificuldade para compreender”, diz.

Quem nunca leu um livro e se identificou com o personagem? Ou achou que aquela história era super parecida com alguma situação da vida real?

“Eu tenho uma tia idosa que disse: nos livros a gente aceita tudo”, conta a professora. Na leitura, “vivemos” casos de crime, traição e cenas fantásticas como, por exemplo, pessoas montando em dragões voadores. O efeito disso é que criamos empatia com algumas situações que no mundo real seriam negativas ou impossíveis. É nesse sentido, mais genérico, que se configura o caráter terapêutico dos livros.

Equilibrando os sentimentos

A biblioterapia pode ser usada de forma mais sofisticada. Psicológicos podem usar como tratamento para pacientes com depressão indicando – de forma sistemática – livros que fariam a pessoa enxergar situações ou ajudariam a falar sobre si.

Numa biblioteca, um profissional especializado, pode organizar pequenos grupos para leitura orientada e usar obras literárias para tratar de assuntos do mundo real. Ideal é que ao final da leitura exista um momento de diálogo entre o biblioterapeuta e o grupo. Este é um tempo valioso de interação e troca de sensações e sentimentos que surgiram.

“Ao compreender um personagem, a pessoa talvez entenda algo que não aceita na vida real. A biblioterapita pode ser o movimento individual em que o livro ajuda a processar sentimento”, afirma Marília Paiva.

Para a professora, ao contrário dessa literatura que ajuda a organizar os sentimentos, aqueles livros que pretendem ser terapêuticos indicando o que fazer, como lidar ou formas de agir, são muito ruins. “Tentar conduzir emoções não adianta. Na boa literatura você cria empatia porque experimenta o personagem”.

Compreensão do mundo real

A biblioterapia traz a possibilidade de abordar assuntos nem sempre fáceis de conversar. A professora Marília Paiva cita o livro Raposa, de Margaret Wild e Ron Brooks, como uma leitura útil para compreensões de amizade, traição, inveja, solidão, entre outros sentimentos.

História: o Cão e Gralha são amigos por escolha e por necessidade, pois ele é cego de um olho e ela não pode mais voar. Um ajuda o outro por causa das limitações, até que um dia a Raposa aparece cheia de raiva, inveja e da solidão. O Cão acolhe Raposa em sua casa e lhe oferece abrigo e comida. Mas, a Raposa quer de todo jeito estragar a amizade e o amor existentes entre o Cão e a Gralha.

“Ler este livro pode ajudar uma criança a identificar atitudes que as pessoas tomam na vida real. Essa literatura está tratando de escolhas erradas que os personagens fazem, assim como nós na vida real. A biblioterapia não é apenas um texto, não é um momento específico, mas uma formação ao longo de várias leituras”, explica a professora Marília Paiva.

Curiosidades

  • A palavra biblioterapria é a junção de dois termos de origem grega: biblion (βιβλίο), referente a toda espécie de artefato bibliográfico ou a qualquer material que possibilite o ato da leitura e therapeia (θεραπεία) que significa terapia.
  • Durante a Idade Média, a cura em hospitais era auxiliada pela leitura da Bíblia e, no Cairo, ocorriam como método terapêutico suplementar às leituras do Corão.
  • Na primeira guerra mundial foram criadas bibliotecas em hospitais de campanha, situação que se repetiu durante a segunda guerra mundial. Os médicos das tropas americanas observaram que os soldados tratados com a biblioterapia se recuperavam mais rápidos dos traumas.