Em 22 de abril, relembramos o Descobrimento do Brasil. Para falar sobre este momento em que Pedro Álvares Cabral aportou em terras brasileiras, escolhemos indicar o livro O E-mail de Caminha, da autora mineira Ana Elisa Ribeiro. A obra é uma releitura da carta enviada ao rei de Portugal pelo o escrivão da frota portuguesa, Pero Vaz de Caminha.

A história original você já deve conhecer, certo? Caminha descreve cada detalhe da terra encontrada. Agora, vamos ver o que a escritora inventou para nos reaproximar desse documento oficial!

No livro, Ana Elisa Ribeiro transforma a carta de 14 páginas em vários e-mails. Na verdade, tudo começa com um tweet: Partiu índias! “Sempre gostei muito do documento, ficava fascinada com a carta desde a época do colégio. Como professora, lamentava que as pessoas tivessem um pouco de preguiça de ler. Tinha essa ideia de transformar a carta, pensando nas tecnologias que temos hoje. Se Caminha tivesse uma tecnologia como a nossa, o que este texto ia virar?”, conta Ana Elisa.

Ela pensou que Caminha escreveria a carta de outro jeito, com nova linguagem e de forma mais fragmentada. Assim, iniciou o processo de produção que durou cerca de três meses.

“Peguei a carta, coloquei no Word e fui trabalhando, tentando ser fiel ao conteúdo, mas mexendo na forma. Pensei que Caminha poderia enviar vários e-mails por dia, relatando as coisas na medida em que estavam acontecendo. Fui fatiando a carta em assuntos. Deu um trabalho grande mexer na linguagem, colocar as coisas da tecnologia como hashtags e emoticons”.

Outro desafio da autora era pensar em respostas para os e-mails, pois não há oficialmente uma carta do rei de Portugal enviada a Caminha. “Fiquei livre para criar um personagem. Eu não tinha compromisso com a história oficial, podia fazer uma coisa literária. Aliás, a carta de Caminha é entendida como documento literário também. Tentei trabalhar aproximando os jovens e as pessoas de hoje ao texto”, explica a autora. Assim, ela criou um rei antenado tecnologicamente, muito engraçado e “meio bipolar, com humor variado”.

Segundo a escritora, a reação ao livro é muito positiva porque ele é engraçado e curioso. “Me dá várias alegrias porque é adotado em escolas e cumpre a missão dele de aproximar os estudantes da carta oficial. De vez em quando, vou até as escolas e converso com os alunos sobre o processo de criação. É um livro que consegue conectar muitas coisas. Pode-se discutir em literatura, português, história, geografia, sociologia”.

Trabalho na escola

A professora Renata Amaral, do Centro Pedagógico da UFMG, foi uma das que propôs adoção do livro na escola. E não foi uma simples leitura: ela criou com os estudantes um projeto para fazer releituras dos e-mails de Caminha. As turmas inventaram a página do Facebook de Caminha, fizeram o selfie de Caminha, expuseram todo o material e ainda participaram de um debate com a autora.

A professora Renata Amaral comenta o livro:

Ficcional, divertido e bem humorado: 

É legal lembrar que a carta oficial, inserida ao final do livro, é uma tradução, pois seria muito complicado lermos a original. A caligrafia é diferente, assim como o idioma. É um português do ano de 1.500, que mistura galego e espanhol.

Língua, história e tecnologia:

A autora Ana Elisa Ribeiro disse que escolheu recriar e-mails de Caminha pensando que seria um formato mais duradouro. “Se eu conectasse meu livro a uma tecnologia muito efêmera, correria o risco de o livro acabar. Se eu tivesse feito o Orkut de Caminha, a esta hora ninguém entenderia”. Para ela, o e-mail ocupa este lugar de forma mais oficial e duradoura no cenário da comunicação atual.

Trabalho dos alunos do Centro Pedagógico UFMG/Foto: Arquivo da professora Renata Amaral

Depoimentos

Os estudantes do Centro Pedagógico da UFMG, que leram o livro e participaram do projeto proposto pela professora Renata Amaral, deixaram um recadinho:

“Fizemos uma releitura da releitura”, estudante Lívia Xavier Aguiar: 

“Pude ter a dimensão de que não existe apenas uma interpretação de um acontecimento” , estudante Lucas Castelão: 

“Se pudesse participar de novo, participaria”, Lucas Madson: 

De acordo com a escritora, é muito interessante ver que os leitores entendem a liberdade para retrabalhar o texto. “O livro convida à ação. Se você acha engraçado, pode fazer o Twitter de Caminha. Na época não tinha o WhatsApp como  é hoje, então, você pode criar. É uma gama de possibilidades para estudantes e professores. É muito gratificante para o autor ver a coisa se espalhar”.

Quem curtiu pode ficar ligado porque a autora está preparando um outro projeto parecido com e este e, em breve, vai contar para o Minas Faz Ciência Infantil.

Trabalho dos alunos do Centro Pedagógico UFMG/Foto: Arquivo da professora Renata Amaral

Sobre o livro

O E-mail de Caminha

Autora: Ana Elisa Ribeiro

Ilustrador: Drummond, Marconi

Editora: RHJ Livros

Páginas: 111

Ano: 2014

A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil deu ao livro um selo de acervo básico, que é um reconhecimento a obras importantes para compor o acervo de bibliotecas das escolas.