Quando a gente vê uma aranha, a reação inicial pode ser de medo, pavor, nojo ou aflição.

Tem gente que até gosta de chegar bem pertinho delas e observar seus comportamentos. Mas, cuidado!

Tem aranha por aí que não gosta de ser importunada e é preciso manter distância para ela não machucar você.

Esse é o caso da aranha popularmente conhecida como armadeira ou aranha de bananeiras, que tem o nome científico Phoneutria nigriventer (foto acima). Ela é muito agressiva e responsável pela maioria dos acidentes com aracnídeos.

A boa notícia é que a ciência transformou o veneno dessa aranha em um aliado da medicina.

Pesquisadores da Fundação Ezequiel Dias (Funed), localizada em Belo Horizonte (MG), em parceria com colaboradores da Santa Casa-BH e da UFMG, trabalharam durante anos estudando o veneno da armadeira e descobriram neste veneno alguns componentes, que, no futuro, possam ser transformados em medicamentos contra a dor.

As pesquisas deram origem a um Pedido de Depósito de Patente no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), que é quando os resultados do trabalho dos cientistas já estão amadurecidos e precisam ser protegidos. Posteriormente, podem receber mais investimentos para finalizem as pesquisas e desenvolverem os remédios, por exemplo.

Márcia e Marta no laboratório da Funed / Foto: Verônica Soares

Como foi feita essa pesquisa?

Para entender como essa pesquisa foi desenvolvida, a gente foi até a Funed conversar com duas grandes cientistas: Marta do Nascimento Cordeiro, responsável pela condução do estudo há pelo menos três décadas, e Márcia Helena Borges, que está há dez anos envolvida no projeto.

O estudo que elas realizam tem como foco a atividade terapêutica de uma toxina do veneno da aranha.

Na etapa inicial, as pesquisadoras e suas equipes descobriram que o veneno tinha um efeito analgésico, ou seja, diminui ou acaba com a dor.

A partir deste resultado, as pesquisadoras isolaram e identificaram a toxina responsável por este efeito.

A ideia é fazer um remédio para quem sofre de quadros de dor crônica que se manifesta por mudanças na temperatura ambiente, do frio intenso ao calor excessivo.

Muitas descobertas só foram possíveis, mais recentemente, em função do avanço tecnológico que permitiu enxergar melhor os componentes do veneno da aranha.

Até o refeitório da Funed é enfeitado com Bolinhos cientistas! Foto: Verônica Soares

Como é possível retirar o veneno da aranha sem se machucar?

A aranha armadeira é conhecida por ser uma aranha errante, ou seja, ela vive passeando por aí e não constrói teia para capturar suas presas.

Ela é uma caçadora ativa e domina suas presas pelo seu veneno, que é extremamente neurotóxico, ou seja, atinge o sistema nervoso!

Durante o dia, a espécie se esconde em lugares úmidos e escuros, sendo muito ativa ao entardecer e à noite.

Por isso, é preciso tomar cuidado ao mexer em espaços em que ela pode se esconder, como entulhos e lugares sujos e fechados.

Para obter o veneno que é usado nas pesquisas, as aranhas são capturadas e mantidas no Aracnidário Científico da Funed.

Mensalmente, o veneno é extraído pela equipe liderada pela bióloga Maria Nelman Antunes de Souza. Mas a pesquisadora Marta contou pra gente que está cada vez mais difícil fazer esse processo:

“A produção de veneno é muito pequena. A gente tira só uma gota de veneno por aranha, por mês. Até juntar o que a gente precisa para fazer a pesquisa, demora um pouco, e precisamos de muitas aranhas. À medida que as aranhas envelhecem, elas produzem menos veneno”.

No laboratório em que Marta e Márcia trabalham, elas recebem só o veneno para estudar – as aranhas ficam em outro prédio, mais distante.

Cada aranha produz cerca de 10 a 12 microlitros de veneno, o que corresponde, em média, de 1,0 a 1,50 miligramas de proteína.

São realizadas muitas extrações do veneno até chegar a 1 grama de veneno necessário para o processo que é realizado no laboratório delas, de purificação.

Com a quantidade suficiente, as pesquisadoras podem dar início ao processo de obtenção da toxina, que é trabalhoso e demorado.

“A natureza é muito inteligente, tudo está interligado. Uma parte importante da pesquisa científica é observar como as coisas acontecem na natureza para depois trabalharmos no laboratório. Nós identificamos que o veneno dessa aranha paralisa a presa, mas também libera uma enzima que ajuda a digerir o corpo dessa presa, facilitando o trabalho da aranha na hora de se alimentar”, conta Márcia.

O cromatógrafo que separa os componentes do veneno da aranha / Foto: Verônica Soares

“No laboratório, a gente pega esse veneno e começa a separar os diversos componentes para entender qual parte é responsável por qual sintoma”, explica a pesquisadora Márcia.

Com a ajuda de um equipamento chamado cromatógrafo (foto ao lado), essas diversas partes do veneno da aranha são separadas e as pesquisadoras e sua equipe fazem vários testes para entender a atividade de qual componente, além da concentração deles (quais estão ali em maior ou menor quantidade).

“É um teste complicado de fazer, pois existe uma diversidade muito grande de componentes, uma variedade de funções que a natureza colocou naquele veneno da aranha para ela conseguir sobreviver”, explica Márcia.

Depois que as pesquisadoras fazem a separação dos componentes do veneno e chegam a uma toxina pura, identificada, esse material vai para teses de atividade biológica em outro laboratório.

O que aprendemos com essa pesquisa?

Na nossa visita à Funed, a gente aprendeu que a diferença entre um veneno e um remédio pode estar na quantidade e na concentração de componentes, e que os mesmos componentes que causam dor podem contribuir para reduzir a dor, depois que são separados e estudados pela ciência.

Essa pesquisa mostra que o veneno não é algo do mal: ele ajuda a aranha a sobreviver e, quando estudado em laboratório, pode virar remédio para quem precisa de ajuda com diversas doenças.

Se você ficou interessado em trabalhar com o veneno de aranhas em laboratório, pode estudar para ser um bioquímico, com especialização em química de proteínas, e ajudar a produzir venenos do bem no futuro!

Mural na entrada da Funed / Foto: Verônica Soares

DICAS PARA QUANDO ENCONTRAR UMA ARANHA!

Simulação do veneno (colorido) e dos seus componentes (separados por cor). / Foto: Verônica Soares

Em função do desmatamento e do crescimento das cidades, está cada vez mais comum encontrar aranhas armadeiras em áreas urbanas, nos quintais de casa e até em espaços públicos.

Caso você se depare com uma delas, saiba o que fazer para evitar acidentes:

  • Mantenha sempre o quintal de casa e ambientes internos e externos limpos e livres de entulho.
  • Cuidado com bananeiras! A aranha não tem esse nome por acaso, ela gosta de se esconder aos pés dessas árvores.
  • Se você achou uma aranha, deixe ela quietinha. Se a aranha não se sentir ameaçada, ela não vai atacar!
  • Em caso de um acidente com picada de aranha, um dos locais de referência para avaliação e tratamento em Belo Horizonte é o Hospital João XXIII.