Já falamos aqui no site sobre doação de órgãos, mas resolvemos voltar ao assunto para abordar um procedimento bem específico: o transplante de ossos. Você sabia que existem bancos de ossos, cartilagens e tendões que podem ser usados em pacientes que precisam? Da mesma forma que alguns necessitam substituir coração, rim ou fígado doentes, há pessoas que ganham vida nova com tecido ósseo doado. Vamos conhecer esta técnica?

O médico Ricardo Horta é cirurgião de quadril e ortopedista oncológico na Santa Casa BH. Isso quer dizer que ele é especialista em cuidar de pacientes com câncer e realiza transplantes, principalmente, em pessoas que tiveram tumores ósseos.

“Se um tumor nasce no osso, para que seja retirado com margem de segurança, é preciso remover o osso todo”, explica. Esta é uma medida para evitar que o câncer espalhe, mas deixa uma falha, por isso, a necessidade de transplante. Segundo o médico, o procedimento também é feito em pessoas que tenham defeitos ósseos graves decorrentes de outras cirurgias.

Por exemplo: um paciente passou por operação em uma articulação – como quadril ou joelho – na tentativa de recuperar movimentos. Nesse processo, foi inserida uma prótese para ajudar nas funções e, com o passar do tempo, o tecido ósseo naquela região desgastou. Aconteceu o que os ortopedistas chamam de “absorção óssea”, que pode evoluir para uma falha óssea, sendo necessário o transplante.

Mas, a partir do momento que os médicos percebem a necessidade de transplantar, como tudo acontece?

Imagem ilustrativa. Foto: Pixabay

Doação

O doador de ossos é um cidadão que escolhe doar os órgãos quando morre. De acordo com Ricardo Horta, são retirados preferencialmente desse doador ossos longos como: úmeros (parte superior do braço) e fêmures (da perna). Também são usados para doação ossos da bacia e pelve (região do quadril), além de tendões e cartilagens.

Os ossos ficam armazenados em Banco de Tecidos Musculoesqueléticos dentro de grandes geladeiras, com temperaturas baixíssimas. No Brasil, existem locais destinados a guardar tecidos ósseos no Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo, conforme relata Ricardo Horta.

O paciente que precisa receber ossos entra numa lista de cadastro nacional. Passa por exames que para ter certeza de que não está com infecções e verifica-se a compatibilidade com o tecido do doador.

Depois, o paciente pode ser operado em um hospital registrado para realizar o transplante e que tenha ortopedistas capacitados para a cirurgia.

“Não é qualquer médico que faz o processo. Existe um protocolo a ser preenchido e leva quase dois anos para essa regulamentação”, explica o doutor Ricardo Horta.

Ciência x rejeição

Os médicos que realizam transplantes solicitam ao Banco de Tecidos Musculoesqueléticos o material que vão precisar. O osso pode ser transportado inteiro ou em pedaços, dependendo do caso.

Conforme Ricardo Horta, a rejeição nesse tipo de transplante é mínima. “A recuperação também é rápida, como se a pessoa colocasse uma prótese interna, aquelas que substituem tecidos”.

O médico explica que a ciência ajudou muito na evolução de exames que ajudam a reduzir a taxa de infecção e rejeição.

Segundo ele, as leis que regem a doação de órgãos também melhoraram, o que deixa as pessoas mais confiantes em transplantes.

O Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro, gerencia a fila de pacientes do Brasil que necessitam de tecido ósseo. Pessoas com idade entre 18 e 70 anos, que não tenham sido vítimas de câncer ósseo, osteoporose ou doenças infecciosas transmitidas através do sangue (como hepatite, AIDS, malária), podem doar. Os ossos retirados de um doador, após seu falecimento, podem beneficiar aproximadamente 30 pessoas.