Em meio aos cinco milhões de exemplares de insetos destruídos no incêndio que consumiu o acervo do Museu Nacional, havia uma libélula recém-descoberta nos arredores da Cidade Histórica de Ouro Preto, outro valioso patrimônio brasileiro. Ela foi batizada de Heteragrion cauei, em homenagem a Cauê, filho de Walter Francisco de Ávila Júnior – o autor do descobrimento.

Estudante da Ufop, Walter resolveu apresentar como trabalho de conclusão de curso, na graduação em Ciências Biológicas, um catálogo das espécies de libélulas encontradas na Cachoeira das Andorinhas. A área ambiental é protegida por abrigar uma das nascentes do Rio das Velhas, maior afluente do Rio São Francisco.

“Comecei a explorar cada canto do Rio das Velhas que fosse possível chegar. Foram muitos dias andando pela mata, atravessando córregos, subindo serras e pegando carrapatos”, conta. As 27 saídas a campo resultaram na catalogação de 42 espécies de libélulas. Uma delas, alaranjada, chamou a atenção por ser muito diferente das outras.

Por curiosidade, decidi pesquisar qual espécie era aquela. Quando fui para o laboratório, coloquei-a na lupa e observei cada detalhe que eu pudesse ver. A cor e o formato dela eram bem interessantes, mas eu ainda não conseguia saber o nome científico. Foi quando decidi perguntar para um pesquisador mais experiente se poderia me ajudar a descobrir o nome da libélula. Ele já havia descrito diversas outras espécies de libélulas no Brasil e me veio com uma resposta fascinante: depois de analisá-la, disse que se tratava realmente de uma nova espécie, lembra Walter.

O especialista consultado foi o biólogo Frederico Augusto de Atayde Lencioni. Pesquisador autônomo, ele já descobriu mais de uma dezena de espécies do inseto e homenageou quatro delas com nomes dos integrantes da banda Queen. Antes de iniciar o trabalho, Walter também procurou Ângelo Machado, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais, dono de uma coleção de 35 mil libélulas e responsável pela descrição de 48 espécies. O estudante conta, ainda, com o apoio do professor Marco Antônio Alves Carneiro, da Ufop, seu orientador na iniciação científica.

Depois da confirmação da descoberta, Walter fez a descrição detalhada da nova espécie e teve um artigo publicado na revista científica alemã Odonatologica, referência mundial em pesquisas sobre libélulas. O exemplar original, chamado pelos pesquisadores de holótipo, havia sido depositado no Museu Nacional. Embora ele seja insubstituível, o estudante pretende se aventurar mais uma vez pelo Velhas, em busca de outra libélula que sirva de modelo para a comunidade científica.