Por Camila Montalvani

“Você é neta do professor Gláucio? Ah, deve ser fera em Matemática”. Ai, que decepção! Não é que não gostasse dos números – na verdade, tinha (e ainda tenho) a mania, por exemplo, de contar árvores, passos, carros e outras coisas –, mas algo entre mim e a Matemática não dava certo.

Voava demais nas ideias e ela parecia querer sempre me puxar para a Terra. Assim, ficava com a impressão de que a disciplina parecia pouco criativa (ou cansativa, mesmo!). Ainda bem que tive a chance de descobrir que meu pensamento estava completamente errado. E como! Tudo isso aconteceu numa conversa com Jacques Fux, que é engenheiro e matemático.

Além disso, depois de formado, na chamada pós-graduação, ele ainda estudou Ciência da Computação e Literatura. Opa, literatura? Sim, isso mesmo. E é aí que as coisas começam a ficar bem interessantes. Para o Jacques, a Matemática possui muitas caras.

Uma delas é essa que a gente conhece: a das operações de adição, subtração, divisão e multiplicação. Ou da tabuada, das frações, equações e dos problemas. Já a outra tem a ver com o mundo das letras. No livro Literatura e Matemática, que o Jacques Fux escreveu para adultos (mas uma versão para crianças ainda será lançada!), ele fala das relações entre essas duas disciplinas, aparentemente, opostas, mas que, em certos momentos e com alguns autores, têm muito em comum.

Pausa para o “raciocínio lógico”! Antes de contar um pouco mais dessa história, a gente precisa falar de outra coisa importante: o raciocínio lógico. Para resolvermos uma questão matemática, partimos de certas regras, não é, mesmo? Bem…

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Ao seguir essas normas, chegamos a um resultado que pode ser considerado válido ou não (certo ou errado, verdadeiro ou falso) em relação ao “caminho” percorrido por nós. Em resumo: não adianta escrever, na prova, o resultado final! A gente precisa, mesmo, é mostrar ao professor como chegamos lá: esse é que é o tal raciocínio lógico! De volta àquela história…

Quando o Jacques Fux diz que a Matemática está presente na Literatura, suas ideias partem do estudo de importantes escritores de ficção, como o argentino Jorge Luiz Borges, o francês Georges Perec e o italiano Ítalo Calvino (autores que você ainda não conhece, mas que, quando for mais velho, vai adorar). Esses artistas da palavra trabalharam, em seus livros, com estruturas lógicas e raciocínios que muito têm a ver com o “universo” matemático. Para explicar um pouco melhor essa relação entre os números e as letras, Jacques nos convida a pensar em Alice no País das Maravilhas.

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O Lewis Carroll, autor da história, era matemático e escreveu o livro para ensinar essa Matemática (um pouco diferente) às crianças, em especial, a uma menina chamada Alice. “O que pude perceber é que Lewis Caroll quer despertar a atenção das crianças, a partir de recursos lógicos, que, à primeira vista, parecem mirabolantes.

Em Alice através do espelho, por exemplo, ele brinca com a lógica do espelho, que inverte as coisas. E, se tudo é invertido, a gente também pode inverter a lógica. Assim, o escritor brinca que pode servir o bolo primeiro antes de parti-lo. E se descobrir acordando antes de dormir”, explica. Pa-lín-dro… O quê?

Outra estrutura matemática presente na Literatura que o Jacques estudou é o palíndromo. Mas o que é isso? São palavras que, lidas da esquerda para a direita, ou da direita para a esquerda, ficam iguaizinhas. Quer um exemplo? O nome ANA. O escritor que brincou com essa estrutura foi o francês Georges Perec, que (acredite!) criou um livro inteiro assim! Para conseguir enxergar essa outra matemática, Jacques nos dá uma dica: que tal vê-la como um jogo, um conjunto de regras que possui uma ordem lógica entre si? A partir daí, você pode criar outras lógicas. Ele lembra, ainda, que é preciso descobrir o encanto da disciplina.

“Falo tanto da Matemática do dia a dia, que nos ajuda a resolver problemas importantes e a organizar a vida, como daquela que quer saber de onde vêm os números e as regras e o porquê de as coisas serem como são”, diz.